Agora também no Medium.com

Apenas para avisar: as postagens aqui do blog também serão partilhadas no Medium.com. Não tudo. Do que foi publicado até agora, uma seleção. Do que teremos por vir, com certeza mais. E assim vamos…

O legal é que como eu configurei o perfil do blog no Medium.com por meio do aplicativo para tablets, não consigo achar o link correto para o perfil de publicações. Tão logo eu consiga eu posto aqui no blog.

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A soberania da chuva

Daqui a pouco chove. Sempre depois do meio-dia. Demora um pouco às vezes, pode ser que comece depois das quatro. Mas chove. Ela sempre vem, a chuva da tarde.

Desde que cheguei aqui em Belém, nos derradeiros de 2004, muitos dos meus conhecidos me dizem que a chuva da tarde era mais constante, que era sempre ali pelas 15:00 horas. Dizem que o desmatamento mudou o horário das chuvas, e que ele começou a variar com os anos.

Pode ser. Até o momento o que mais tenho visto nesses anos todos, foi o desmatamento na cidade e no estado crescerem, e a chuva resistir. Ou melhor, eu tenho visto a indiferença da chuva. Porque nem adianta eu dizer que ela resiste, pois a chuva simplesmente é, independente da minha vontade ou da minha linguagem. Sou eu quem tento controlá-la com a minha arrogância letrada, com este discurso, com a minha mania de querer definir tudo com minhas explicações, com minhas pobres prosopopéias: “a chuva resiste…”

Mas ela não resiste. Ela é soberana. Toas as tardes, entre fevereiro e julho, a chuva assina as tardes da Amzônia — desse imenso canto do mundo que, contra sua vontade, talvez, foi denominado de Amazônia. Sempre chove, há séculos!

E meus vizinhos ficarão por causa do alagamento da rua aqui em frente de casa. Vão esbravejar contra a prefeitura, e têm razão. Mas, enquanto xingam o prefeito até não mais poderem, intimamente prestarão uma homenagem ao poder das chuvas, timidamente, ao comentarem comigo ou entre si “Que chuva, não?”, ou “Você viu a chuva que caiu?” — e mais espantos e interjeições quase lugares comuns — tudo internalizada homenagem à chuva.

A prefeitura, essa e a próxima, e a próxima, e a próxima… Bem, elas gastarão o que puderem (mesmo que não possam) com muita publicidade prometendo resolver ad aeternum “o problema das chuvas” — quando a chuva, no singular ou no plural, nunca foi um problema. Questão de tempo: oficialmente a cidade tem 401 anos, mas eu não me atrevo a perguntar pela idade das chuvas. Criar um projeto de urbanização, de arquitetura, de paisagismo que contemplem a soberania da chuva é tão difícil? Com toda a engenharia que temos, universidades, experiência de povos e memória de gentes que viveram anos às beiras dos rios não seria possível entender a vontade das chuvas, seu tempo, e entrarmos em acordo?

A chuva, para mim, continuará a não ser um problema. Aceito a sua indiferença, aceito sua soberania. Meus pés molhados são um problema meu. Os erros de cálculo do engenheiros, a cegueira e a falta de sensibilidade dos tomadores de decisões também são meus problemas. Mas, agora, prefiro rir, deixar os sapatos molhados em cima do tanque de lavar e ver o jardim ganhar brilho com as poças d´água. Prefiro escutar o som da chuva da tarde, o céu prateado e cor de chumbo, cores da soberania da chuva.

Perdas e Ganhos

Antes de tudo eu estou bem! Tô legal mesmo, numa boa. Há seis dias sofri um acidente de moto, tolo  como a maioria dos acidentes: invadi uma preferencial, felizmente em baixa velocidade; deixei passar dois carros, prestei o máximo de atenção em qualquer barulho, como não ouvi nenhum, segui adiante. Fiz isso porque estava em uma rua estreita e com visão ruim e, para piorar, havia um caminhão parado à esquina da esquerda, tapando toda a visão da rua exatamente no sentido em que os carros vêm.

Entrei um pouquinho, veio uma moto que acertou o meu pneu dianteiro, resultado: minha moto para a direita, eu rolando pela rua à esquerda. Não sofri nada muito grave – uma bela pancada no tórax, sétima costela esquerda trincada. Nada no pulmão, tudo limpo, só uma dor danada que passa um pouco por dia.

O que doeu mais no fim das contas não foi o tórax, nem mesmo o ego – ainda que este sempre saía um pouco arranhado. No fundo o que doeu mais foi a sensação estranha que senti um dia depois da batida, e que procurei entender o que era; essa sensação sempre vem acompanhada de uma frase, ou da lembrança de uma frase que mais de um amigo meu já disse, anos atrás, em momentos de revés. A frase é: “eu acho que eu perdi alguma coisa”.

Com certeza não foi a primeira vez que eu uso essa frase para expressar que algo mudou na minha vida. Logo depois do período mais grave da minha depressão, entre o final de 2000 e 2001, quando eu comecei a me recobrar, sentia algo muito parecido, essa mesma sensação e perda. Naqueles dias, hoje eu sei, eu havia perdido minha ingenuidade e a minha juventude. Mas e agora?

Agora eu perdi, naquela batida, uma grande parte do meu individualismo. Nem sei se essa é bem a palavra, mas quero dizer o seguinte: por pressa, por excesso de autoconfiança nos meus sentidos, porra, eu poderia ter matado o cara da outra moto! Não aconteceu nada com ele, mas poderia! Quando eu penso nisso morro de vergonha! Na hora da batida fiquei tão preocupado com a situação que eu queria saber o o outro motociclista estava bem, e só fiquei mais tranquilo quando falei com ele e me desculpei. Eu fiquei péssimo!

Aquela batida não trincou somente uma costela. Trincou uma espécie de casulo, de concha ou carapaça com que eu, tímido e canceriano nato e irredimível me protejo deste mundo. Existe muito mais vida e responsabilidade espalhada pelo mundo que aquelas que eu carrego dentro da minha carapaça… Adeus carapaça, bem-vindo corpo!

Edvard Munch – Radiografia da mão esquerda antes da cirurgia (1902) – Fonte: Tate Galery Londres. Clicando na imagem, link para o belo artigo “The soul laid bare”, sobre a vida e obra de Edvard Munch
 

Carapaças não doem, aguentam choques. Corpos doem, corpos trincam e se machucam. Corpos sentem. Corpos sangram, têm expressões, sentem culpa e vergonha, se conectam com o mundo. Na batida, relembro, ou mesmo redescubro, que tenho um corpo e que ele tem certas lógicas e sensações que não dependem da minha consciência. Com uma costela trincada, por exemplo, rir, arrotar, tossir e espirrar são coisas que doem, que doem muito! Dor que é como se fosse um aviso vindo de dentro de mim, um aviso muito claro de que HÁ UM CORPO, PORRA,  que eu, você, temos isso! E que esse corpo existe! E que ele me carrega, que ele tem um mim e um eu que bem podia ter detonado a vida de um OUTRO. Tudo isso é lindo nos muitos textos que leio por aí mas, neste caso, aquela batida de moto foi uma espécie de aula prática de ética e de antropologia, afora de física e anatomia.

É, pensando bem, continuo tão individualista quanto antes. só perdi uma carapaça. Se ganhei um corpo com ele veio um enorme senso de fragilidade, e uma sensação de nudez. Porque corpos são nus, ficam nus sem carapaça. Ficam expostos. Tornam-se outra coisa.

E com a carapaça, o que mais se foi? Melhor dizer: e com o corpo, o que mais veio? Veio uma sensação de que eu não fiz quase nada do que eu quis! Simples, simples: se fosse um carro que tivesse batido em mim, eu poderia ter morrido! Na hora da batida eu não conseguia respirar, e a sensação foi a de um alerta geral da consciência para savers se eu, de fato, não tinha algum ferimento mais sério, se não estava sangrando pela boca, se o ar ia voltar… Eu não tive medo, juro. Aquela sensação, não tinha a haver com o medo da morte, era mais o sangue-frio de saber o que estava acontecendo – preservação. Mas depois das radiografias e dos analgésicos, depois que eu pude parar para pensar, que eu entendi bem o que aconteceu, ela veio, aquela velha  conhecida sensação de melancolia, daquelas melancolias que sempre anunciam que uma verdade vai aparecer, normalmente logo após um monte de perguntas: afinal, que diabos ando fazendo da minha vida? Escrevi tudo o que eu gostaria de escrever, ou tudo o que pede para ser escrito?

Fui beber com meus amigos?

Preparei melhor minhas aulas?

Os blogs, ficam às moscas ou estão vivos?

Tudo o que eu realmente quis ou quero fazer, tudo o que eu sonho faz justiça ao que eu realmente penso poder fazer?

Ou sobra só um babaca que adia, por carapaça, tudo o que pode viver, amar, produzir, desenvolver, devir, necessitar?

Adoraria que tudo o que escrevo agora fosse stress pós-traumático. Acho que não é. Quando se ganha um corpo e se perde uma carapaça ganha-se uma enorme e urgente vontade de viver. Ganha-se consciência dos riscos. Medo? Também. Mas mesmo o medo muda: passa a ser o medo de não mais viver se não o que se deseja, ao menos o que se pode. E se se termina algo, como um texto, é porque outra coisa começa para além dele, e que me pedirá palavras: o que pode meu corpo, e para onde ele me carregará de agora em diante?