De mudança!

O blog está com endereço novo:

www.atoupeiracava.blog.br

Com o novo endereço também mudamos de plataforma. Os anos aqui no WordPress têm sido ótimos. Continuarei alimentando esta versão do blog, e comentando postagens de blogs que sigo. Mas a atenção agora está voltada para o site no novo endereço.

Abraços a todos!

Leituras Faladas (I) – A Cabana, de Max Martins. [Atualizado]

Há tempos eu queria inaugurar essa série e, finalmente, consegui. É um projeto meu chamado “Leituras Faladas”. Tratam-se de pequenas montagens intercalando imagens do presente e leituras de textos como poemas ou trechos de romances, tentando ligar espaço, memória e literatura.

O primeiro da série é “A Cabana”, de Max Martins, aproveitando um antigo vídeo da cabana do poeta, na praia do Maraú, que fiz anos atrás.

A primeira versão não ficou lá estas coisas, especialmente pelo áudio. Então resolvi reconstruir o clipe, melhorando tudo o que eu pude com os recursos que eu tenho.

Também criei um canal no YouTube para abrigar o projeto e outras playlists de literatura. Para visitar o canal, basta clicar aqui.

Essa também é minha primeira experiência com vídeos. Ficou bem amador, mas vá lá.

Abraços a todos!

Memória partilhada sobre Nick Cave

A minha lembrança mais antiga de Nick Cave remete aos anos 1980. Não me lembro exatamente quando, possivelmente 1987, mas não sei exatamente. Se que vi um comercial da TV Cultura com um anúncio da transmissão de um show do cantor australiano. Sei que me lembro dele aparecendo na TV com sua magreza enorme, as calças pretas, aqueles cabelos negros esquisitos e longo, uma camisa branca que parecia saída de algum armário de poeta romântico do século XIX. Ou seria um de seus ternos cinzas ou pretos? Enfim: estou descrevendo como Nick Cave me vem à mente. Não tenho como saber se ele estava vestido assim. Não sei se estou delirando. Tudo bem: “os meus delírios também são fatos”…

Mas me lembro bem da música que tocava naquele comercial:

E aquela voz! Grave, berrada, raivosa. Ele era estranho. Ele era furioso. O som não era pesado, era até leve para os padrões de Heavy/Thrash metal que eu ouvia na época. Mas havia raiva ali. Definitivamente ele era um dos caras maus. Podia perceber pelo nome de sua banda, The Bad Seeds, as “más sementes”, algo que um garoto católico como eu entendeu logo de cara: eles não eram o trigo, mas o joio, com em Mateus, 13:24-30: O joio inseparável do trigo, a erva daninha: a melancolia daquele que será condenado no Juízo Final, daquele que não será salvo.

Aquilo em atraiu, com certeza! Pelo seu poder! Pela raiva! Pela ousadia e pela coragem de ser o líder das “Más Sementes”. E, principalmente, pela honestidade com que aquilo era cantado, e pelo que ele despertou em mim: eu estava diante de algo que eu gostava genuinamente, sinceramente. Era estranho, diferente, desconhecido, realmente singular. Ninguém conhecia, ninguém gostava. Mas eu sim! Ninguém se interessava a não ser eu. E eu e aquela música estranha podíamos ser sozinhos, juntos.

Claro que fui atrás de qualquer informação que eu pudesse conseguir sobre aquele cara. Foi quando soube de seu vício em heroína, dos escritos em muros de estações de metrô usando uma seringa com caneta, e seu próprio sangue como tinta. Então eu soube que aquela voz tinha um enorme flerte com o desespero e com a autodestruição. Coisas que me fascinavam, e que eu tanto temia. E então estou diante de um cara que era louco e corajoso o suficiente para arrancar arte dessa proximidade com a morte. O que só consolidou minha admiração sobre a franqueza com que Nick Cave retirava poesia da violência, da morte, de uma forma tão próxima e direta. Era como ver a arte de alguém que orbitava um buraco negro, e que, sem sombra de dúvida, estava prestes a ser tragado por ele.

Surpreendentemente, Nick Cave não morreu. Se livrou do vício em heroína e como que se estabilizou em uma órbita em torno do buraco negro. Teve tempo para amar, viver no Brasil, se casar, se separar, ser pai, perder um filho e, finalmente, envelhecer. Com a sobrevivência, ganhou estrada, memória, história e reconhecimento por parte de seu público e da crítica.

Escrevo da perspectiva de alguém que pertence ao seu público. Com certeza esse texto não é de crica musical, mas uma forma de partilhar impressões e memórias de alguém que pertence ao seu público e o artista. Com mais certeza ainda, isso não chegará à Nick Cave, mas se chegar a outros apreciadores dele, ótimo. Até porque como parte de seu público, como Nick Cave, eu envelheci também. Envelhecemos todos. Se não sou um sexagenário como o cantor, já posso dizer tranquilamente que minha juventude já disse “adeus”.


Me pergunto, então, o que foi feito de nós? Estou menos raivoso? É bem possível. Com o tempo se aprende a lidar com a raiva, a não ser dominado por ela, mesmo a saber usá-la ao seu favor. Especialmente, aprende-se a lidar com as próprias frustrações, a impotência e as limitações. Neste sentido continuo em sintonia com a música de Nick Cave: a raiva cedeu espaço à uma certa melancolia e amargura, à ironia, claro, mas também a uma espécie de exame de como é o desejo, as paixões, as diferenças entre o Eu e os Outros. A autodestruição cedeu espaço para uma espécie de pensamento poético sobre a finitude e a morte, sobre o que pode existir depois que deixarmos esta forma; sobre a melancolia de continuar a ser uma má semente que envelhece – mas também sobre a liberdade de pensar e sentir, já que não haverá uma salvação para o joio.

Penso que tudo isso está na música de Nick Cave, em suas letras, mas também em sua sonoridade: de sons raivosos, distorcidos, um pouco punks, a produção do cantor e compositor se torna mais cheia de efeitos sonoros, como se fossem cada vez mais trilhas incidentais para poemas cantados, ou quase declamados. Também sua música se torna mais acústica, mais densa, mais sombria. Deixou de lado letras que são crônicas de personagens desajustados para apostar na reflexão, no pensamento, em construção de atmosferas e ambientes para suas música. Seus discos se transformam cada vez mais em cenários, em instalações sonoras habitadas por seus poemas, cada vez mais líricos. Perdem raiva e deboche, mas ganham uma densa ambientação em sua arquitetura sonora.
Gosto da ideia de amadurecer e envelhecer compartilhando dessa paleta que constrói ambientes sonoros vindos desses abismos marinhos emocionais que Nick Cave mergulha e explora. Como amante e apreciador de sua música, não sei quão fundo ele me levará, que Deus não nomeado aparecerá por lá, que imagens bíblicas serão mobilizadas talvez contra a própria fé, o quanto sua poesia estranhará a mim mesmo. Mas estou sempre ansioso por descobrir.

Citações pertinentes sobre o Brasil de hoje (III)

Wilhelm Reich. Foto por Wien L. Guttman. Fonte: Wikimedia Commons

O fascismo, em sua forma mais pura, é o somatório de todas as reações irracionais do caráter do homem médio. O sociólogo tacanho, a quem falta coragem para reconhecer o papel fundamental do irracional na história da humanidade, considera a teoria fascista da raça como mero interesse imperialista ou, apenas, como simples “preconceito”. O mesmo acontece como político irresponsável e palavroso: a extensão da violência e a ampla propagação desses “preconceitos raciais” são prova da sua origem na parte irracional do caráter humano. A teoria racial não é uma criação do fascismo. Pelo contrário, o fascismo é um produto do ódio racial e a sua expressão politicamente organizada. Por conseguinte, existe um fascismo alemão, italiano, espanhol, anglo-saxônico, judeu e árabe. A ideologia da raça é uma grande expressão biopática pura da estrutura do caráter do homem orgasticamente impotente.

O caráter sádico-perverso da ideologia da raça revela-se também na atitude perante a religião. O fascismo seria um retorno ao paganismo e um arquiinimigo da religião. Muito pelo contrário, o fascismo é a expressão máxima do misticismo religioso. Como tal, reveste-se de uma forma social particular. O fascismo apoia a religiosidade que provém da perversão sexual e transforma o caráter masoquista da velha religião patriarcal do sofrimento numa religião sádica. Em resumo, transpõe a religião, do “campo extraterreno” da filosofia do sofrimento, para o “domínio terreno” do assassínio sádico.

A mentalidade fascista é a mentalidade do “Zé Ninguém”, que é subjugado, sedento de autoridade e, ao mesmo tempo, revoltado. Não é por acaso que todos os ditadores fascista são oriundos do ambiente reacionário do “Zé Ninguém”. O magnata industrial e o militarista feudal não fazem mais do que aproveitar-se deste fato social para os seus próprios fins, depois de ele se ter desenvolvido no domínio da repressão generalizada dos impulsos vitais. Sob a forma do fascismo, a civilização autoritária e mecanicista colhe no “Zé Ninguém” reprimido nada mais do que aquilo que ele semeou nas massas de seres humanos subjugados, por meio do misticismo, militarismo e automatismo durante séculos. O “Zé Ninguém” observou bem demais o comportamento do grande homem, e o reproduz de modo distorcido e grotesco. O fascista é o segundo sargento do exército gigantesco da nossa civilização industrial gravemente doente.

(…)

O fanático fascista não pode ser neutralizado, se for procurando unicamente de acordo com as circunstâncias políticas prevalecentes, apenas no alemão e no italiano, e não também no americano e no chinês; se não for capturado dentro da própria pessoa; se não conhecermos as instituições sociais que o geram diariamente.

Wilhelm Reich. Psicologia de massas do fascismo. Trad. Maria da Graça M. Macedo. 2ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 1988. Excertos do prefácio à 3ª. edição em língua inglesa, original de 1942, incluída na edição brasileira.