Nomes, mapas, rostos

Salvador Dali, A persistência da memória, 1931. Fonte: Wikipedia.

Eu tenho uma dificuldade enorme com nomes. Tenho dificuldade de me lembrar de boa parte dos nomes das pessoas que eu conheço; chego a esquecer dos nomes até de pessoas que conheço há anos. De outras, que não vejo há vinte, trinta anos, me lembro como se fosse ontem, mas são poucos. Isso me faz me sentir péssimo e também estranho: sabe o que é relembrar um sem número de lugares, emoções, acontecimentos, sensações, diálogos que pessoas que são intensidades com tempo, calor, densidades, cenários, mas sem nomes? Parece uma maldição sentir tanto amor, tanto carinho por tantas pessoas que fizeram parte da minha vida, que fizeram a minha vida, e não se lembrar do nome delas.  Continuar lendo

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Não sou eu quem estou aqui

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Bob Dylan, capa do disco Self Portrait. 1970. Fonte: Wikipedia.

Ainda que estas crônicas sejam escritas em primeira pessoa, e que configurem uma escavação da memória quase narcísica, devo avisar que o que aparece aqui nestas postagens não sou eu. Por mais que isso seja absurdo, terminantemente: não, não sou eu quem está aqui.

Kafka, em algum lugar de sua correspondência, dizia que ele precisava estar completamente sozinho para escrever, porque escrever é expor-se demais. Ele está coberto de razão, e sabia talvez melhor do que ninguém esta relação entre o escritor contemporâneo e o processo de exposição. Expor-se, aqui, não é falar a verdade e confessar-se inteiro. É outra coisa: é estar vulnerável, aberto, em exame. Quase uma auto-dissecação, é estar tão desprotegido que pode ser atacado a qualquer momento, não só pela distração, ou por qualquer pessoa que entre na sala e nos bisbilhote e queira saber o que andamos fazendo quando escrevemos. Continuar lendo

“Green is the color” ou “Any color you like”

 

TODO MUNDO TEM uma reserva de metafísica. Alguns acreditam em Grandes

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Ziraldo, Signo de Câncer. Fonte: Google Arts and Culture.

Líderes que vão redimir a História e a Humanidade e salvar a Pátria, outros estão procurando o seu Eu Verdadeiro ou o Amor Verdadeiro, outros são profundamente místicos e curtem Nova Era / “Let the Sunshine In“, outros são Espíritas, outros Católicos, Evangélicos, há os que sejam Comunistas e há os que optem pela fé no Livre Mercado tornado Deus.

 

Como eu sou tão humano demasiado humano quanto qualquer um, eu também tenho minhas necessidades de segredo, de vida interior, de experiências em que as coisas não sejam elas mesmas, que as palavras não seja mero veículo transparente ou rótulo para uma realidade nua e crua. Isso pode ser um tanto antiquado mas eu não me sinto confortável em um mundo onde as coisas são resignadas a serem elas mesmas. Aliás, não conheço violência maior do que ou forçar alguém ou algo a ser aquilo que ele não quer ser, ou obrigar alguém a ser apenas e tão somente uma coisa só. “Seja você mesmo”? Não. Prefiro quando Nietzsche diz algo infinitamente mais honesto e instigante, lá no Ecce Homo: “Torna-te o que tu és”. Aí temos um axioma que é um ponto de partida para uma busca, e não um slogan, um conjunto idiota de palavras de ordem.

Dito isso posso dizer quais são as minhas reservas de metafísica: a Literatura, claro. E, de uma forma muito estranha e heterodoxa, o Zodíaco. Continuar lendo

A Posse do Presente

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Otto Stupakoff. Ansiedade, 1990. Pertencente à coleção do Instituto Moreira Sales. Fonte: Google Arts e Museu de Arte Moderna (MAM)

Daqui a pouco faço quarenta e cinco anos. Desde que me entendo por gente, me debato com um problema sério: Ansiedade. Assim, com “A” maiúsculo. Admito que sou um ansioso clínico, patológico. Daqueles que sofre, hoje, de uma ansiedade quase paralisante. Hoje, porque em um passado recente ela realmente me paralisava.

O que é ser um ansioso patológico? Por se tratar de uma patologia mental, minha luta é para ter um controle sobre ela, pois ela nunca vai desaparecer – e nem adianta eu ficar ansioso por causa disso. Este, na verdade, foi o meu primeiro aprendizado: não ficar ansioso com o fato de que minha ansiedade é incurável.  No meu caso há um elemento genético. Rigorosamente TODOS os meus parentes são ansiosos: filhas, irmãs, mãe, pai, sobrinhos, tios, minha avó materna. Todos são, ponto. Então não há muito o que fazer. Digamos que o meu cérebro já funciona naturalmente de uma maneira um tanto paranoica, se preparando continuamente para eventos catastróficos, situações difíceis, dores, humilhações, dissabores, incompreensões, fracassos, problemas que estão ali à espreita, ou no trabalho, ou na dobrando a próxima esquina, ou quando toca o telefone ou vejo minhas mensagens no WhatsApp. Tudo está pronto para acontecer, e a culpa é minha, por algum motivo.  Continuar lendo